segunda-feira, 6 de abril de 2015

PAI JOÃO BAIANO

          QUANDO EM VIDA FOI UM GRANDE REI DE UMA TRIBO, NA CIDADE DE CANARINHO/ ÁFRICA. NO PERÍODO DA ESCRAVATURA, FOI APRISIONADO E ESCRAVIZADO PELOS PORTUGUESES, E LEVADO AO BRASIL ONDE DESEMBARCOU NA REGIÕES LITORANEAS DA BAHIA.
         FICOU NA CONDIÇÃO DE ESCRAVO NA FAZENDA DOS COQUEIROS,  TENDO SOFRIDO INCONTÁVEIS HUMILHAÇÕES, CHICOTEADO E EXPLORADO COMO UM ANIMAL.
E COM ATITUDES NOBRES DE UM REI, ESTE NEGRO PEDIA A OXALÁ, PERDÃO DE DEUS PARA O SEU SENHORES, POR TAMANHA MALDADE E FALTA DE AMOR NO CORAÇÃO.
COM 94 ANOS, OCORREU-LHE UM ACIDENTE COM UM CARRO DE BOI, VINDO A PARTIR DESTA VIDA MATERIAL.
           COM FÉ, AMOR E HUMILDADE ESTE NEGRO FOI SALVO POR ZAMBI MAIOR (DEUS)! CONSAGRANDO-LHE UM GRANDE GUARDIÃO DAS LEIS DIVINAS, FAZERIA PARTE DA 1º LINHA NA UMBANDA QUE É A DOS PRETOS VELHOS.
O GRANDE CRIADOR LHE DEU VÁRIAS MISSÕES E UMA DELAS ERA QUE:.
PAI JOÃO TERIA QUE RESGATAR TODOS OS SEUS FILHOS QUE ANTES ERAM DO SEU REINO NA ÁFRICA E TAMBÉM AQUELES QUE O ACOMPANHARAM EM SUA CAMINHADA NO BRASIL, QUANDO ESCRAVO.
              PAI JOÃO ACEITOU COM HUMILDADE, E DESDE ENTÃO VEM ACOLHENDO SEUS FILHOS QUE ESTÃO ESPALHADOS POR ESTE MUNDO, REENCARNADOS E A PROCURA DO SEU REI CAURÊ (VERDADEIRO NOME DE PAI JOÃO).

PAI FRANCISCO DE LUANDA




Noite na senzala. Os escravos amontoam-se pelo chão arranjando-se como podem. Engrácia entra correndo e vai direto até onde Amundê está e o sacode: - A sinhazinha está chamando, é urgente! - O escravo é conhecido pelas mezinhas e rezas que aplica a todos seus irmãos e o motivo do chamado é justamente esse. O filho de Sinhá Tereza está muito doente. É apenas uma criança de cinco anos e arde em febre há dois dias sem que os médicos chamados na corte consigam fazê-la baixar. Sem ter mais a quem recorrer, no desespero próprio das mães, resolveu seguir o conselho de sua escrava de dentro e chamar o africano. Aproveitando a ida de seu marido à cidade, ele jamais concordaria, manda que venha. Sabendo do que se tratava o homem foi preparado. Levou algumas ervas e um grande vidro com uma garrafada feita por ele e cujos ingredientes não revelava nem sob tortura. Em poucos minutos adentram o quarto do menino e Amundê percebe que precisa agir com presteza. Manda que Engrácia busque água quente para jogar sobe as ervas que trouxe enquanto serve uma boa colherada do remédio ao garoto. Dentro de uma bacia coloca a água pedida e vai colocando as folhagens uma a uma enquanto reza em seu dialeto. Ordena que desnudem a criança e carinhosamente a coloca dentro da bacia passando-lhe as ervas no pequeno corpo. Nesse instante a porta se abre e surge o Sinhô Aurélio acompanhado do padre da cidade. Tereza grita e corre até o marido desculpando-se. O padre dirige-se a ela com ferocidade: - Como entrega seu filho a um feiticeiro? - dirigindo-se ao marido - Diga adeus ao menino, após passar por essa sessão de bruxaria ele morrerá sem dúvida! Tereza corre até o filho e o cobre com um cobertor enquanto o marido ordena que o escravo seja levado imediatamente ao tronco onde o capataz aplicará o castigo merecido. - Engrácia, acorde todos os negros para que vejam o fim que darei ao assassino de meu filho! Todos reunidos no grande terreiro ouvem a ordem dada ao capataz: - Chibata até a morte! E vocês - aponta todos os escravos - saibam que darei o mesmo fim a todos que ousarem chegar perto de minha família novamente. As chibatadas são dadas sem piedade, Amundê deixa escapar urros de dor entremeados com rezas o que somente aguça a maldade do capataz. Lágrimas copiosas correm pelas faces de muitos escravos. Após duas horas de intensa agonia o negro entrega sua alma e seu corpo retesa-se no arroubo final, finalmente descansará. O silêncio do momento é cortado por um grito vindo da principal janela da casa grande: - Aurélio, pelo amor de Deus - é Tereza com o filho nos braços - o menino está curado, a febre cedeu e ele está brincando! Assim morreu Amundê conhecido em nossos terreiros como o velho Pai Francisco de Luanda.

PAI JACÓ





Pai Jacó nasceu na Africa em Guiné no ano de 1764, aos 7 anos de idade veio ao Brasil como escravo, foi comprado por um fazendeiro, da região norte de Minas Gerais. O fazendeiro era um homem de coração duro, rústico, que nunca chorava nem por sua própria dor nem pela dos seus semelhantes.
Jacó era chamado assim desde de criança, não sabendo se realmente fora batizado com esse nome, depois de velho passaram a chamar-lhe de Pai Jacó.
Sempre fora um homem muito humilde, resignado e trabalhador, por esse motivo gozava da confiança de seu patrão, a quem sempre procurava servir com a melhor boa vontade e satisfação. 
Para festejar na véspera de Natal era de costume de seu Senhor convidar para o banquete, todos os fazendeiros da região para passarem a noite em sua fazenda, onde fazia uma grande fogueira, com muita dança até o amanhecer.
No dia 22 o seu senhor já havia comprado, perus, patos, galinhas e leitões para a festa do dia 24 de dezembro, e colocou Pai Jacó para tomar conta dos animais para que eles não fugissem. Mas na manhã seguinte o fazendeiro percebeu que alguns animais fugiram por um buraco feito no cercado de taquara.
Indgnado com o que aconteceu e sem piedade, mandou prender Pai Jacó em um lugar sem luz e sem água, depois de recriminá-lo asperamente e ordenou ainda que nenhum alimento, nem água fosse lhe dado.
Na manhã do dia 24, apareceram no terreiro, não se sabe como, todas as aves e leitões que haviam sumido.
Na madrugada desse dia, Pai Jacó na sua prisão, ajoelhou-se e numa prece, feita entre lágrimas, pedia a Jesus que o seu amo não o culpasse pelo sumiço dos animais, pois não era sua culpa, e orando também por ele, para que recebesse do céu a luz que precisava; que a ele concedesse a resignação e humildade que necessitava, para suportar a sua ira e a fome, porque estava passando e não sabia quantos dias continuaria assim, sem uma gota de água na sua prisão.
Ao terminar a sua prece, viu clarear repentinamente a prisão, ao abrir-se o teto viu aparecer um anjo, que lhe parecia o menino Jesus, trazendo, sorridente em uma das mãos, um pão muito alvo, e na outra um copo com vinho, dizendo-lhe com voz angelical: Pai Jacó, trago-lhe, meu amigo, esse vinho e esse pão. Jacó estupefato, ajoelhou-se novamente, chorando de alegria e fitando aquele menino, que pairava no espaço, a pequena altura, envolto em muita luz.
O escravo comeu o pão e viu que saiam chispas de luz do mesmo, cada vez que levava aos lábios; depois bebeu o vinho e o menino Jesus sempre de fisionomia sorridente, abençoou com as suas mãozinhas rosadas e desapareceu, fechando novamente o teto e voltando a escuridão em que se achava.
Mas durou pouco tempo essa escuridão, pois notou que pelas frestas da tosca e pesada porta, partiam raios luminosos que ele admirava; sem saber explicar o que era, ajoelhou-se novamente e em uma outra prece cheia de gratidão, agradeceu a Deus a sua misericórdia.
Quando terminou de orar, ouviu rumores de fora e vozes que se aproximavam; abriu-se a porta e apareceu o seu senhor, seguido do feitor e de outros escravos, e lhe disse:
- Pode sair Jacó. E ordenou a um dos escravos que lhe fosse dado alimento.
- Não preciso comer, meu senhor, ninguém abriu até agora esta porta, respondeu-lhe ele.
- Como então não tem fome?
- Por que na madrugada do dia 24, creio que era madrugada, eu fiz uma oração a Deus, e abrindo esse teto apareceu o Menino Jesus, que veio cheio de luz com pão e um copo de vinho e deu-me. Comi o pão do qual saia uma espécie de fogo, e bebi o vinho que era saboroso.
Depois o menino Jesus subiu lentamente e desapareceu, fechando assim o teto da minha prisão. Por muitos dias meu senhor não precisarei me alimentar.

O meu senhor, continuou Jacó, que ouvia como que petrificado a minha narrativa singela e verdadeira, ficou olhando-me admirado e pelas suas faces corriam grossas lágrimas que ele vertia pela primeira vez na sua vida, pois nunca havia chorado. Chorava sim, pela primeira vez aquele coração endurecido, que não havia dor que o abatesse.

VOVÓ LUÍZA




Andei por muitos lugares, por muitas estradas de terra cheias de buracos, empoeiradas que com o calor do sol dificultava ainda mais o meu caminhar.
Há muito tempo não chovia e essas estradas eram de terra socada, com pedrinhas que machucavam bastante os meus pés, pois eu já não tinha mais sapatos, eles estavam sem a sola de tanto que eu caminhei.
A sede era imensa, a fome nem tanto pois o cansaço era maior e quando eu encontrava um tronco de uma árvore, eu parava e ali adormecia por horas, às vezes por dias.
A fraqueza era tanta, a dor era tanta, a solidão era tanta, mas nada era maior do que a minha fé e a minha vontade de chegar em meu destino.
Até que um dia, eu já havia contado 15 luas, eu avistei no finzinho uma casinha de barro bem humilde porém limpa e cheia de amor, e dentro dela havia um homem.
Então eu parei e pedi um pouco de água e contei que já estava perambulando há 15 luas e ainda não tinha conseguido chegar!
Esse mesmo homem perguntou para onde eu estava indo, e eu respondi:
- Para o meu destino!
Bebi um pouco de água, ele me deu uma vasilha com mais água e fui embora a procura do que estava procurando.
Ventava muito, a poeira de terra do chão seco me cobria, as vezes era até difícil de respirar, mas eu não deixei isso me atrapalhar.
Depois de mais 13 luas eu avistei uma pequena mata bonita, só que dessa vez eu já não enxergava mais de uma vista, porque deu inflamação com a poeira de terra que entrava e eu acabei vendo tudo esfumaçado dessa vista.
Cheguei até essa pequena mata e mesmo com apenas uma vista boa eu conseguir ver tanta beleza e conseguir sentir em meus braços uma brisa suave, era como se eu estivesse recebendo um abraço. Por ali fiquei mais algumas luas, aproveitei para descansar e me alimentar de algumas coisas que a pequena mata pode me oferecer.
Então um dia recolhi alguns frutos, algumas folhas de ervas e continuei a caminhar, para encontrar o meu destino.
Até que depois de muito caminhar, tive um enorme aprendizado com a infinita estrada de terra. Tive muita alegria por um irmão ter tirado a minha sede, tive muito conforto com a mata, pois ela cuidou do meu sono e me alimentou, depois disso tudo finalmente cheguei ao meu destino.
Aprendi que sozinho não conseguimos aprender.
Aprendi que sempre que precisamos tem alguém para nos amparar, basta pedir.
Aprendi que quem quer e luta, consegue chegar em seu destino.
Aprendi que cada lua que passava tinha alguém olhando por mim, era Ele o Pai Maior.
Depois de muito caminhar, pisar em muitas pedrinhas, sentir dor, sentir frio, sentir calor, ter sede, eu não desisti, apenas vivi. Não chorei de tristeza e sim de alegria porque tive ajuda em todas essas luas que caminhei.
O meu destino eu sei qual foi e eu o alcancei!
Às vezes é preciso perder um calçado no meio da estrada da vida para sentir a terra, pisar na terra, que é para os pés ficarem fortes para nos deixar firmes para continuar a caminhar na infinita estrada.
E o seu destino, qual será?

Salve Omulu!
Salve Santo Antônio!
Salve São Francisco!
Salve os Pretos Velhos!
Vovó Luiza da Bahia

História do Rei Congo

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   Rei Congo é um Preto Velho amado por toda a Umbanda, pela sua humildade e serenidade.

    Ele foi escravo entre o século XVI e o século XVII, e desde sua juventude era um guerreiro, que lutava em prol de seus irmãos africanos que tanto sofriam nas mão de seus Coronéis e Feitores.

    A história diz que Rei Congo, que tinha seu nome de batismo como Octácilio, era um grande rezador e curador de doenças, ficando sendo conhecido entre negros e brancos pelo seus tratamentos das moléstias como a tuberculose, que na época exterminava muitas pessoas sem escolher cor nem raça.

    O negro Octácilio, certa vez após uma das filhas de um Coronel fazendeiro, chamado de “Senhor do café”, ficar muito fraca com a famigerada doença assassina, a tuberculose, ficou muito conhecido em toda região pelo tratamento dado a pequena sinhá, através de seus conhecimentos de ervas utilizadas em chás e compressas, sanando assim todo mal estar sofrido por ela e curando-a de vez da tão maléfica doença. Após esse fato Octácilio começou a frequentar outras fazendas da região para, com sua sabedoria ajudar outras pessoas que sofriam além da famigerada tuberculose outros males que afligiam a tão covarde e intolerante classe branca e rica da época.
Com essas viagens de fazenda em fazenda, Octácilio começou a perceber que seus irmãos negros sofriam grandes humilhações e maus tratos dos então feitores que ordenados pelos coronéis, mandavam castigar na chibata e no tronco todos os negros sem que houvesse motivo para tal covardia.

    E foi assim que o jovem Octácilio tomou para si a vontade de lutar contra essas atrocidades, e dia após dia ele tomado por seu desejo de liberdade e também pela grande vontade de livrar seus irmãos das garras covarde de feitores e coronéis, ele decidiu então tentar a fuga, com o objetivo de mais tarde tentar ajudar os outros escravos a fazerem o mesmo.

    Enfim chega a noite da fuga, Octácilio e mais alguns negros, após um dia cansativo na preparação da terra para um novo plantio de café, conseguem fugir do cativeiro após dominarem o feitor e seus jagunços quando já iam acorrentar as portas do senzala.

    Vários negros fugiram, muitos deles foram recapturados e outros mortos, mas Octácilio conseguindo se embrenhar nas matas escuras conseguiu enfim a sua liberdade.

    A partir desse dia, Octácilio com a ideia fixa em tentar libertar seus irmãos escravizados, rogou a Pai Oxalá e a todos os Orixás que lhe mostrassem o caminho para que ele conseguisse o tal feito.
Após vários dias e noites fugindo pelas matas sagradas de Pai Oxossi, ele se depara com uma montanha, que na época era conhecida como “Monte dos Perdidos”, essa montanha tinha centenas de caminhos que interligados chegavam a lugar algum, e apenas um caminho levava ao cume da montanha.

    Octácilio por algumas vezes já ouvira falar da lenda do “Monte Perdido”, e sabia que o cume dessa montanha seria o lugar ideal para se abrigar e abrigar os negros que ele desejava libertar dos açoites e dos troncos destruidores.

    Em suas orações ele pediu aos Orixás Sagrados que lhe abrissem o caminho, e que ele conseguisse chegar ao cume da montanha sem se perder pelo labirinto que o levaria a morte.

    Foi ai que ele começou sua caminhada rumo a tão assustadora montanha, e sem se dar conta, subia a trilha de maneira tão segura e confiante que sem esperar em poucas horas já estava diante de um grande campo florido com um grandioso lago de águas límpidas. Ele admirado por tanta beleza daquela natureza que lhe foi entregue por Oxalá, ele se ajoelha e agradece pelo presente tão belo.

    E foi nesse belo e protegido lugar que Octácilio começou a sua luta de livrar da escravidão seus irmãos negros, pois ali estava nascendo o Quilombo do Congo" e também o sonho de ali ser o caminho da paz buscada pelos quilombolas.

    Entrando pelas fazendas cafeeiras durante as madrugadas, Octácilio começou a resgatar os negros escravos, levando-os para o Quilombo do Congo, e ali esses negros começaram a plantar, a construir seus lares e constituir família.

    Octtácilio escolhia os negros mais novos, fortes e ágeis, fazendo deles um grupo de guerreiros da mesma causa, ou seja libertar mais e mais escravos, e no primeiro grupo já preparado para ação, o negro Octácilio recebeu o nome de Rei do Quilombo do Congo, e todos a partir desse dia passaram a lhe chamar de “Rei Congo”, como é conhecido até hoje nas casas de Umbanda.

    Certa vez, em mais uma das centenas de vezes que Rei Congo tentava buscar a liberdade para os negros escravizados, um certo coronel muito temido dentro da região fez com que seus feitores e centenas de jagunços ficassem de tocaia por vários dias e noites com intuito de capturar o libertador de escravos. E numa noite nebulosa no qual Rei Congo e seus guerreiros estavam prontos para mais uma ação, o velho negro Malaquias, que tinha o dom da vidência, disse ao seu Rei negro que aquela noite ele não deveria levar seus guerreiros, pois muitas mortes poderiam ocorrer, ele deveria ir só, pois apesar de ser muito perigoso seria dessa oportunidade que ele traria um grande aliado nas causas que lutavam.

    Rei Congo com toda sua humildade concordou com o velho Malaquias, e saiu só para essa missão, ao chegar a fazenda em questão, Rei Congo tenta chegar a senzala onde dormiam os negros escravizados. Porém a um certo momento Rei Congo se depara com um dos feitores da fazenda com dezenas de jagunços armados. O feitor o acorrenta em um tronco próximo a senzala, a espera do dia raiar e acatar as ordens do tão famigerado coronel.

    Rei Congo com olhar firme porém sereno, tenta buscar forças nas palavras do velho Malaquias, tentava entender todo o fato, toda a causa do acontecimento. Sabia ele que tudo que acontecera teria uma razão, porém até então não conseguia chegar numa resposta em que aquilo tudo poderia ajudá-lo na luta contra a escravidão.

    O sol raiou, e o feitor que ora tinha acorrentado Rei Congo, tinha um semblante cansado, parecia amargurado. Ele manda um dos seus jagunços levarem a notícia da captura do libertador de escravos ao coronel, que logo vem com as ordens de açoitarem o negro libertador até a morte, e que levassem o corpo dele a té ele, para junto a outros coronéis fazendeiros comemorassem a morte do tão temido Rei Congo.

    E foi dada a missão ao feitor de levar a morte a Rei  Congo por meio da chibata. E ele, o feitor, já preparado para o começo da tortura daquele corpo preso ao tronco de madeira por meio de correntes de aço, quando olha nos olhos de Rei Congo e diz se ele era o tal negro curador de doenças tão conhecido dentro da região por ter curado muitas pessoas da tão medonha doença, que na época era a tuberculose. Rei Congo, ainda com olhar sereno apenas balançou a cabeça afirmativamente. Então o feitor o livra das correntes e  se jogando aos pés de Rei Congo pede a ele para salvar a sua amada que se encontrava tísica, ela estava extremamente enfraquecida e sem nenhuma chance de sobreviver. Rei Congo estendendo a mão ao feitor, lhe pergunta se ele tinha fé, ele responde que sim, então Rei Congo diz que ele ia libertar sim a doce jovem dos males da tuberculose.

    O feitor, sabendo que teria que entregar o corpo de Rei Congo para os coronéis, resolveu então libertá-lo e seguir com ele e sua amada para o Quilombo do Congo. E assim foi feito, nesse mesmo dia saíram fugidos da fazenda rumo ao Monte dos Perdidos, e mesmo durante a viagem Rei Congo fazia seus chás e compressas para o tratamento da jovem Rosa, que dia após dia ia recuperando sua saúde. E ao chegarem a seu destino, com cuidados mais especiais, com o tratamento vindo das ervas e compressas sagradas do velho Congo, Rosa se recuperou totalmente, e em agradecimento o feitor, que tinha o nome de Amadeu, jurou lealdade a Rei Congo, que se transformou em um dos grandes guerreiros libertadores do Quilombo de Rei Congo.

    Apenas os guerreiros de Rei Congo sabiam o caminho correto para chegar ao “Monte dos Perdidos” que já estava sendo conhecido em toda a região como “Quilombo de Rei Congo”. Como a quantidade desses guerreiros ainda era baixa, não davam conta de libertarem tantos escravos como era da vontade de Rei Congo, pois as viagens de ida e volta as fazendas eram longas, cansativas e perigosas, ele decidiu então montar pequenos quilombos que servissem de esconderijo para os quilombolas próximo ao quilombo principal, tentando assim conseguir um pouco mais de tempo para aumentar as ações contra a escravidão nas fazendas. Isso infelizmente durou pouco, pois mesmo em matas fechadas esses pequenos quilombos foram descobertos pelos Feitores e seus capatazes, ou pelos Capitães do mato contratados pelos coronéis fazendeiros que estavam a busca de seus escravos.

    Rei Congo então decidiu que mesmo com a demora das viagens e a dificuldade da subida ao “Monte dos Perdidos”, seria melhor que os negros libertados fossem levados diretamente para um lugar seguro ao invés de acamparem nos pequenos quilombos a espera de alcançarem um número maior de quilombolas.

    E assim foi feito por longos anos, Rei Congo e seus guerreiros libertavam os seus irmãos escravizados, os levavam para o Quilombo, e lá eles plantavam, criavam animais, constituíram laços, cultuavam seus Orixás, viviam em paz e em liberdade.

    Muitos coronéis por anos tentaram alcançar o tão conhecido e guardado Quilombo de Rei Congo, muitos feitores, capatazes e Capitães do mato perderam suas vidas tentando decifrar o caminho correto que levava ao cume da montanha, mas nenhum desses tiveram êxito em seus
objetivos, pois ali além de ter grandes guerreiros que protegiam a entrada e o caminho do quilombo, tinha um Rei, um Rei protegido pelos Orixás, principalmente por pai Oxalá no qual o velho Rei Congo agradeceu por toda sua vida a luz dada para que ele encontrasse o caminho para sua libertação e a de centenas de irmãos negros.

    No final do século XVII, Rei Congo fez sua passagem para o mundo dos espíritos já com 90 anos de idade no corpo físico, e sendo agraciado por pai Oxalá a benção de poder vir a terra como Entidade de Luz para continuar libertando as pessoas da escravidão, porém com um trabalho ainda mais árduo, pois essa escravidão não são nas correntes de aço frio, mas da escravidão da inveja que consome a alma, da falta de humildade que magoa o espírito, do orgulho que destrói o perdão, da soberba que esmaga o ser, da falta de amor que escurece o caminho e principalmente da falta de fé que lhe desvia da evolução espiritual.


    Rei Congo preto velho calmo e sereno, humilde mas soberano, tem sempre  a palavra certa na hora certa, tem ensinamentos certos pros momentos certos. Com sua voz mansa e seu jeito peculiar de se sentar, ele é reconhecido por toda a Umbanda, e todos que já tiveram a oportunidade de poder ouvir seus conselhos em seu tom de voz sereno,, pode se considerar um abençoado por pai Oxalá..

    Rei Congo meu mentor, meu Vovô eterno, minha luz num caminho escuro, a ti peço a benção e proteção.

    Saravá Vovô Rei Congo, Adorei as Almas.

História de Pai Prêto (Pai Jeremias)

História de Pai Prêto (Pai Jeremias)image

Com a implantação de fazendas de gado e cultura em Solo brasileiro, muitas vezes, ou quase sempre sacerdotes do Culto africano chegavam trazidos como escravos pelos navios de Contrabandistas que ganhavam a vida destruindo a de outros, entre Estes vindos de tão longe e com a missão dada por Oxalá de divulgar sua religião engrandecendo outras terras com sua sabedoria e bondade. Entre estes chegava, então, um jovem que estava Predestinado a ensinar amor e sabedoria. Ainda, menino foi Introduzido no trabalho árduo e sem trégua. Por sua bondade e sabedoria logo cativou a todos, até mesmo seus senhores, que, percebendo sua condição de tratar com animais feridos ou doentes, solicitavam sempre seus serviços, logo estando este Que seria um sacerdote em sua terra, curando e tratando pessoas a Pedido de seus senhores. Era ele, então, tratado diferente em Meio a tanta crueldade.Com esta oportunidade tinha, então, condição de cuidar dos seus, como predisse um escravo já velho que morrerá em suas mãos: seria ele chamado de pai pelos outros, por sua bondade de empenho em socorrer a todos, não importando se era escravo ou branco. Todos eram socorridos por Pai Preto, como era chamado pelos brancos. A fama de pai preto Correu longe em solo brasileiro, tanto que chegou, sem tardar, ao conhecimento dos missionários, vindos para catequizar os povos da nova terra. Pai Preto tinha, então, 85 anos, já velho e quase não mais conseguia andar, o que não impedia de continuar com suas curas e benzeduras. Mas chegou a ordem, e a orientação: Pai Preto era “feiticeiro” e devia morrer como todos de sua época. Os seus antigos senhores não tiveram coragem de cumprir a missão e então combinaram de esconder Pai Preto e este ficaria assim até a morte, cuidando, é claro, dos interesses de seus senhores. Mas Pai Preto, que nunca soube dizer não ou se intimidar por qualquer perigo, não se deteve e continuou com suas mirongas, suas rezas e sua caridade sem fim. Logo a notícia correu, seria um fantasma ou quem sabe ele teria ressuscitado para desafiar quem mandava? Nova ordem chegou: Então o “feiticeiro” deveria ser desenterrado e sua cabeça arrancada do corpo e enterrada em outro local, somente assim o “mal” deixaria de existir. Aqueles que tentaram esconder Pai Preto, agora com medo, decidiram matá-lo e cumprir o que lhes foi ordenado. Tendo assim, aos 86 anos, Pai Preto deixado o plano físico para trabalhar com suas mirongas em planos mais elevados. Hoje nós que aprendemos a amar a umbanda, com toda sua sabedoria, aprendemos sempre um pouco com aqueles que deixaram esta grande lição de vida e humanidade. Pai Preto É hoje para nós PAI JEREMIAS DO CRUZEIRO, que, ao lado de Omulu, traz a cura para os sofredores dos dois planos. Pai Jeremias recebeu de Oxossi o direito de trabalhar em sua vibração, o que para nós é motivo de mais felicidade, Pois como raizeiro e conhecedor das matas levou para o plano Espiritual este conhecimento para a benção dos filhos da Terra. Salve Pai Jeremias! Salve todos os Pretos Velhos! Adorei as Almas!

VOVÓ MARIA CONGA

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Cenas de exaustivo trabalho em plantações de cana. É nisso que Vovó Maria Conga parece estar constantemente envolvida. Gosta de doces, cocada branca em especial, mas não dá demonstrações de ter sido esta sua principal ocupação na encarnação como escrava.
Sentada em um toco de madeira no terreiro contou, certa vez, alguns fatos de sua vida em terra brasileira.

Começou dizendo que só o fato de podermos conviver com nossos filhos é uma grande dádiva. Naquele tempo as negras eram destinadas, entre outras coisas, a procriar, a gerar filhos que delas eram afastados muito cedo, até mesmo antes de serem desmamados. Outras negras alimentavam sua cria, assim como tantos outros “filhotes” foram alimentados pela Mãe Conga. Quase todas as mulheres escravas se transformavam em mães; cuidavam das crianças que chegavam à fazenda, rezando para que seus próprios filhos também encontrassem alento aonde quer que estivessem.

Os orixás africanos, desempenhavam papel fundamental nesta época. Diferentes nações africanas que antes guerreavam, foram obrigadas a se unir na defesa da raça e todos os orixás passaram a trabalhar para todo o povo negro. As mães tomavam conhecimento do destino de seus filhos através das mensagens dos orixás. Eram eles que pediam oferendas em momentos difíceis e era a eles que todos recorriam para afastar a dor.

Maria Conga teve que se utilizar de algumas “mirongas” para deixar de ser uma reprodutora, e assim, pelo fato de ainda ser uma mulher forte, restou-lhe a plantação de cana. A colheita era sempre motivo para muito trabalho e uma espécie de algazarra contagiava o lugar. Enquanto as mulheres cortavam a cana, as crianças, em total rebuliço, arrumavam os fardos para que os homens os carregassem até o local indicado pelo feitor. Foi numa dessas ocasiões que Maria Conga soube que um dos seus filhos, afastado dela quando já sabia andar e falar, era homem forte, trabalhando numa fazenda próxima.

Seu coração transbordou de alegria e nada poderia dissuadi-la da idéia de revê-lo. Passou então a escapar da fazenda, correndo de sol a sol, para admirar a beleza daquele forte negro. Nas primeiras vezes não teve meios de falar com ele, mas os orixás ouviram suas súplicas e não tardou para que os dois pudessem se abraçar e derramar as lágrimas por tanto tempo contidas. Parecia a ela que eles nunca tinham se afastado, pois o amor os mantivera unidos por todo o tempo.
Certa tarde, quase chegando na senzala, a negra foi descoberta. Apanhou bastante, mas não deixou de escapar novamente para reencontrar seu filho. Mais uma vez os brancos a pegaram na fuga, e como ela ainda insistisse uma terceira vez resolveram encerrar a questão: queimaram sua perna direita, um pouco acima da canela, para que ela não mais pudesse correr.

Impossibilitada de ver o filho, com menor capacidade de trabalho, a Vó Maria Conga virou parteira da senzala, passou a cuidar das crianças negras, e de seus doentes. Seu coração se encheu de tristeza ao saber que haviam matado seu filho quando tentava fugir para vê-la.Sua vida mudou. De alegre e tagarela passou a ser muito séria, cuidando do que falava até mesmo com os outros negros. Para as crianças contava histórias de reis negros em terras negras, onde não havia outro senhor. Sábia, experiente e calada, Vovó Maria Conga desencarnou.
Com lágrimas na alma ela acabou seu conto. Disse que só entendeu a medida do amor após a sua morte. Seu filho a esperava sorrindo, guardião que fora da mãe o tempo todo em que aguardava seu retorno ao mundo dos espíritos.

Sítio Cercado: Rua dos Pioneiros, antes da implantação do Linhão do Emprego e do Circular Sul - Ano de 1996.

  Sítio Cercado: Rua dos Pioneiros, antes da implantação do Linhão do Emprego e do Circular Sul - Ano de 1996.